Geopolítica e Cultura
(Uma adaptação de A Gaia Ciência, Aforismo 125)
Por Manoel Lucas Marthos
Não ouviram falar daquele homem com um acelerômetro na mão que, em plena luz da manhã escolar, acendeu a tela do aparelho, correu para o meio do pátio e começou a gritar incessantemente: “Procuro a atração! Procuro a atração gravitacional!”
Como ali se encontravam muitos alunos e professores de ciências que não acreditavam em métricas tensoriais, ele provocou uma grande gargalhada. “Por acaso ela se perdeu?”, disse um. “Ela está escondida atrás da maçã?”, zombou outro. “Será que ela viajou no espaço absoluto?” Assim gritavam e riam em coro, segurando seus livros didáticos com capas de maçãs caindo.
O homem saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. “Para onde foi a Atração?”, gritou ele. “Eu vos direi! Nós a matamos — vocês e eu! Todos nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos desatar esta Terra do seu Sol? Não existem mais cordas invisíveis, não há magia que nos puxe. Para onde se move a Terra agora? Para onde nos movemos nós? Afastando-nos de todos os sóis? Não estamos caindo continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe ainda um em cima e um embaixo? Não estamos vagando como que através de um nada infinito?”
Os professores pararam de rir. O homem continuou:
“Não sentimos o sopro do espaço vazio? Não faz mais frio? Não é necessário acender lanternas de geometria pela manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros enterrando o espaço absoluto e o tempo universal? A Atração Gravitacional está morta! A Atração permanece morta! E foi Einstein quem a matou! E nós, no entanto, continuamos ensinando a magia de Newton!”
“Com que água purificaremos nossos quadros-negros? Que currículos escolares, que equações fictícias teremos de inventar para esconder que o chão nos empurra para cima? A grandeza desse ato é grande demais para as escolas! Não teremos nós mesmos que nos tornar tensores de curvatura, apenas para parecermos dignos dela?”
Neste ponto, o homem calou-se e olhou novamente para os seus ouvintes; também eles calaram-se e olharam para ele com estranheza. Por fim, ele atirou seu acelerômetro ao chão; o aparelho zerou os números em queda livre e quebrou-se.
“Chego cedo demais”, disse ele então. “Ainda não é o meu tempo. Este acontecimento formidável ainda está a caminho e viaja devagar; ainda não chegou aos ouvidos dos homens, muito menos das instituições de ensino.
O trovão e o relâmpago precisam de tempo; a luz das estrelas precisa de tempo; as verdades da física precisam de tempo, mesmo depois de feitas, para serem vistas e ouvidas. A morte da atração gravitacional jaz há 111 anos! Essa morte está mais distante deles do que a mais distante das estrelas — e, no entanto, são eles mesmos que sustentam esse cadáver todos os dias em suas lousas!”
Conta-se ainda que, no mesmo dia, o homem invadiu diversas salas de aula e entoou nelas o seu Requiem aeternam gravitatis. Expulso e interrogado, teria respondido apenas o seguinte:
“O que são ainda estas escolas, senão os túmulos e os sepulcros de uma física que não existe mais?”
